Três poemas que acá trago, deságuo seus mártires a fim de que subvertam suas diretrizes, leiam como eu inato.


Nosso demônio

Nosso demônio é a vida
A vida sentinela, a vida que renega
Renega seu próprio existir
Há tu de convir que as flores
quando cheirosas, é porque cheiradas as flores foram

A vida quebra-se
Espatifa-se estapafúrdia, em seu próprio buraco
O cerne que a tange
A morte, o mais frio daqueles que predam

Azul, tão calma quanto a brisa litorânea
Apavora a frieza do mundo, torna real a pressão
Escarnece à ilusão, confronta-se à razão
A razão de existirmos… Onde estás?

Estive a andar e mal, mal a encontro
Percebo ferrugem em tua foice
Mas que a cada dia se destetaniza
Em prol do fim de minha vida
Rasga minha consciência
com lâmina de contingência provida.


A Companhia

A mais ilustre companhia
Sente o que não sente
Diz o que não diz
Em forma, está disforme
Em voz, não fala o que disse

Sentiu-se à solo, viu-se às escuras
Ouviu-se ao eco, sem ser onda
Refletiu-se ao reflexo, sem ser luz
A companhia que nunca vem
É a melhor, destila sua perfeição

Em carne, é sangue
Em tecido, é osso
Em ser também é osso
Percebe-se que é o que não é
Comércio das almas, escraviza a essência
que jamais teve, a Companhia jamais terá.


O ser

O ser é inabalado
Consigo seu prazer é inato
Sua causa? Imanente
Está na carne, leitor! Está na carne!

As peripécias do transcendental
Subjugam o que é carnal
Da carne viemos, é à carne que iremos
Crua, sem pudor, vertendo-se em vida, per se

Seu encarnado escorre belo
Sua forma é a do real
Não com curvas, mas de vetores é um coração
Anfitrião das benesses, traidor da carne

O que esse coração faz, aquele renega
O que esse coração faz, aquele estressa
Do elo sai a carne, que surja a temperança
Concede-se o que é pois sacrifica-se pelo que não o é

Onda está a cura, Senhores? Onde está a cura?
Das suas Palavras extraio apenas Vertigem
Cegueira e apenas mazela, a carne sacrificada
por uma essência putrefata.